segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Joãozinho da maré

Um episódio na vida de Joãozinho da Maré
O Joãozinho de nossa história é um moleque muito pobre que mora numa favela sobre palafitas espetadas em um vasto mangue. Nosso Joãozinho só vai à escola quando sabe que vai ser distribuída merenda, uma das poucas razões que ele sente para ir à escola. Do fundo da miséria em que vive, Joãozinho pode ver bem próximo algumas das grandes conquistas de nossa civilização em vias de desenvolvimento (para alguns). Dali de sua favela ele pode ver de perto uma das grandes universidades onde se cultiva a inteligência e se conquista o conhecimento. Naturalmente esse conhecimento e a ciência ali cultivados nada têm a ver com o Joãozinho e outros tantos milhões de Joãozinhos pelo Brasil afora
Além de perambular por toda a cidade, Joãozinho, de sua favela, pode ver o aeroporto internacional do Rio de Janeiro. Isso certamente é o que mais fascina os olhos de Joãozinho. Aqueles grandes pássaros de metal sobem imponentes com um ruído de rachar os céus. Joãozinho, com o seu olhar curioso, acompanha aqueles pássaros de metal até que, diminuindo de tamanho, eles desapareçam no céu.
Talvez por freqüentar pouco a escola, por gostar de observar os aviões e o mundo que o rodeia, Joãozinho seja um sobrevivente de nosso sistema educacional. Joãozinho ainda não perdeu aquela curiosidade de todas as crianças: aquela vontade de saber os "como" e os "por que", especialmente em relação às coisas da natureza; a curiosidade e o gosto de saber que em geral vão se extinguindo com a freqüência à escola. Não há curiosidade que agüente aquela "decoreba" sobre o corpo humano, por exemplo.
Sabendo por seus colegas que nesse dia haveria merenda, Joãozinho resolve ir à escola. Nesse dia, sua professora se dispunha a dar uma aula de Ciências, coisa de que Joãozinho ainda gostava. A professora havia dito que nesse dia iria falar sobre coisas como o Sol, a Terra e seus movimentos, verão, inverno etc.
A professora começa por explicar que:

o restante do texto pode ser acessado no link abaixo

Joãozinho da maré

As mãos perguntam a cabeça pensa -Rubem Alves

A primeira tarefa da educação científica é ensinar a ver e ensinar a pensar


Rubem Alves, psicanalista e escritor, é professor emérito da Unicamp, (site: http://www.rubemalves.com.br). Artigo escrito para a 'Folha de SP':

Encaro com a maior desconfiança os laboratórios nas escolas. Acho que sua função, nas escolas, não é ensinar ciência aos estudantes, mas impressionar os pais.

Os pais se impressionam facilmente. Vendo os laboratórios, eles concluem: "Uma escola com um laboratório moderno assim deve ser uma boa escola...".

Poucos se dão conta de que os laboratórios mentem aos adolescentes. Pois o que eles dizem, silenciosamente, é o seguinte: "É aqui dentro que se faz ciência". Isso é mentira.

Ciência não é uma coisa que se faz em laboratórios. Ciência se faz em qualquer lugar. Ela só precisa de duas coisas: olho e cabeça. Assim, a primeira tarefa da educação científica é ensinar a ver e ensinar a pensar.

Sei de pessoas que são capazes de produzir pesquisas nos laboratórios, mas que, andando em meio aos objetos e situações do seu cotidiano, vêem e pensam como se nada soubessem da ciência.

De fato, não sabem, porque a sua ciência só acontece em laboratórios.

Vocês se lembram do que escrevi sobre os moluscos, que, para sobreviver, constroem conchas eficazes e belas? E se lembram também que Piaget, começando a partir do seu fascínio pelos moluscos, concluiu que os seres humanos se comportam da mesma forma?

Parece haver uma estratégia universal de sobrevivência, que une todos os seres vivos. Também nós, para sobreviver, construímos conchas eficazes e belas, conchas que são feitas com instrumentos e pensamentos. Pensamos para transformar o ambiente que nos cerca em conchas.

Nossas conchas se chamam casas. Casas não são apenas os pequenos espaços, construídos com tijolo e cimento, onde moramos. Casas são os espaços habitáveis que nos cercam e onde a nossa vida acontece.

Piaget sugere que o impulso para conhecer é o impulso para incorporar o espaço que nos rodeia. "In-corporação" quer dizer: colocar dentro do corpo. Ou seja, comer.

Queremos transformar a natureza em corpo. Quando isso acontece, o corpo fica grande, expande-se até os confins do universo... A natureza deixa de ser estranha, exterior. Passa a ser "casa", espaço habitável.

Ou, se quiserem, a natureza humanizada, ou transformada em horta, boa para comer, ou em jardim, boa de gozar... Pois o gozo pertence à vida humana e acho que também à vida dos animais...

Pensei, então, numa escola que fosse uma casa, uma casa comum, dessas onde os alunos moram, parecida com o espaço de sua vida real.

Essa idéia me veio quando uma amiga, professora universitária, me contou um incidente divertido e revelador: Repentinamente, metade de sua casa ficou às escuras. Lembrou-se de que, quando algo semelhante acontecia na casa de sua infância, seu pai trocava os fusíveis.

Concluiu: algum fusível deve ter se queimado. Disse, então, ao filho de nove anos: "Filho, veja se um fusível queimou". Respondeu o menino: "Não se usam mais fusíveis. Agora se usam disjuntores".

Mas ela não sabia o que eram disjuntores nem como estava estruturada a rede elétrica de sua casa, e assim continuou a conversa entre os dois, ela, professora universitária, que, para passar no vestibular, tivera de estudar física elétrica com suas voltagens, "wattagens", impedâncias, ohms, tensões, fórmulas e outras coisas parecidas, totalmente ignorante diante de um simples problema prático em sua casa; e o menino, que nunca estudara física, mas que conhecia os segredos da casa onde morava.

Embora isso esteja esquecido, o caminho para a inteligência passa pelas mãos. Pensamos para ajudar as mãos. Das mãos nascem as perguntas. Da cabeça nascem as respostas. Se a mão não pergunta, a cabeça não pensa.

Pois laboratório vem de "laborare", trabalhar com as mãos, que é essa cooperação entre mãos e inteligência.

Física mecânica, física elétrica, física hidráulica, física ótica, física dos materiais, matemática, química, biologia, saúde, geografia, história, literatura, poesia, ecologia, política, sociologia, arte - todas moram na nossa casa, ferramentas e brinquedos, ao alcance das nossas mãos, desafios ao pensamento: conhecer para "laborare" na construção da casa de morada...

Li uma entrevista do Amyr Klink em que, indagado sobre a educação dos filhos, disse que gostaria que seus filhos aprendessem como aprendem as crianças numa ilha, se não me engano, na costa da Noruega: aprendem as coisas que devem ser aprendidas, para não ser nunca esquecidas, construindo uma casa viking. Assim, estamos de acordo...

A História das coisas

O Indio e a caça

extraído do material da FUNBEC:


Há muitos anos, uma tribo vivia no Colorado (E.U.A) e tinha sua economia baseada na caça de uma espécie de veado. Uma vez que esses animais são migratórios, os índios eram também nômades. Eles seguiam as migrações dos veados para o alto das montanhas e para os vales do Colorado. Eles preferiam preparam a carne da caça, fervendo toda a carcaça num grande tacho.
Uma vez que aquele tipo de veado era muito abundante naquela época, os índios estavam “bem de vida”, mas tinham um problema: quando a carne era cozida nos vales, o processo tomava pouco tempo e a carne ficava macia, mas, quando os animais eram abatidos e cozidos nas montanhas, a carne ficava rija e o cozimento levava várias horas.
Um dia, enquanto esperava que a carne cozinhasse no alto de uma montanha, um grupo de guerreiros começou a pensar neste estranho fenômeno.
Um dos bravos anunciou que tinha tido uma idéia: “Acho que são os maus espíritos que fazem a carne ficar dura. Todos sabem que há mais maus espíritos nas montanhas que nas planícies”. (Eles “sabiam” disso porque aconteciam mais acidentes nas montanhas; coisas tais como braços e pernas quebrados). “Se são os maus espíritos que fazem a carne ficar dura, então vamos colocar uma tampa sobre o tacho. Isto afastará os maus espíritos e fará a carne ficar macia”. Isto fazia sentido, e os índios tentaram.
A carne cozinhou mais depressa e ficou mais macia, mas ainda não estava igual à carne preparada nos vales. Um outro guerreiro teve então outra idéia: “sabemos que os maus espíritos são muito delgados. Eu acho que eles estão se esgueirando pelas frestas entre a tampa e o tacho para endurecer a carne, então, se nós vedarmos as frestas com barro, eles não poderão entrar e a carne ficará macia”.
O novo método foi tentado e a carne ficou ainda mais macia que aquela cozida nos vales.